Isaiah Berlin e a imaginação

A imaginação ocupa um papel importante na obra do filósofo britânico Isaiah Berlin (1909-1997), tanto a respeito dos riscos que ela corre em sistemas de pensamento que pretendam ser definitivos, quanto em seu uso para a compreensão do outro, apreendendo seus valores que, embora possam ser diferentes, são também reconhecidamente humanos. Esse será um dos alicerces da proposta berliniana de pluralismo de valores, sua mais marcante contribuição para o pensamento político. A imaginação, ainda, será segundo Berlin uma das ferramentas do historiador em sua reconstrução dos fatos.

Berlin entendia que, a partir do momento em que as ciências humanas passaram a procurar respostas definitivas sobre o comportamento da sociedade e do homem, fascinadas com as então recentes descobertas, a partir do século 16, realizadas pelas ciências naturais e, de forma especial, pela obra de Isaac Newton, muitas propostas de sociedade produzidas no período foram se transformando em verdadeiras utopias, a descrição de um futuro promissor que poderia ser conquistado por meio da aplicação de práticas, regras e controle social, assim como as teorias científicas das ciências naturais.

A utopia, diz Berlin, sempre foi um gênero literário que estimulou a imaginação e a criatividade dos literatos e, sob essa expectativa – a da literatura – deveria permanecer. No entanto, Berlin passa a verificar que desde o século 18, muitos pensadores e filósofos começam a desenvolver e acreditar em modelos de sociedade que fossem, de fato, possíveis e aplicáveis. Em geral, a revolta contra a censura religiosa, o frenesi com o avanço científico e a esperança de uma espécie de revolução das luzes, por meio único da Razão, despertaram a geração de pensadores iluministas em direção a um futuro de maturidade intelectual e predomínio das ciências. Segundo Berlin, a Revolução Francesa (1789) foi a primeira experiência, ou tentativa, de estabelecer um sistema político concebido, um modelo racional que, segundo seus idealizadores, estabeleceria uma sociedade mais justa e esclarecida tão logo fosse adotado. As teorias sociais que se seguiram a ela – o pensamento de Fourier, Robert Owen, Saint-Simon e os “socialistas utópicos”, bem como o hegelianismo, o marxismo, etc. – foram todas releituras da expectativa primeira de fundação de uma sociedade perfeita.

O temor de Berlin, entretanto, era que qualquer tipo de sociedade modelo eliminasse a liberdade individual e, como consequência, seu poder criativo e de imaginação. Berlin ressalta que todas as descrições utópicas, quer fossem produto da literatura, quer fossem político-filosóficas, apresentavam homens em uma perene situação de felicidade e satisfação, imunes a problemas e descompromissados com qualquer contribuição para o melhoramento da sociedade (pois esta apresenta-se perfeita); tampouco verifica-se qualquer tipo de estímulo à criatividade, além de, em nome do coletivo (como quer que ele se manifestasse: em uma marcha da história, na identificação de um “eu” sublime, igual em todos os homens), o indivíduo fosse impedido de seu pleno desenvolvimento, como se viu, por exemplo, nos governos totalitários do século 20.

Numa sociedade em que os mesmos objetivos são universalmente aceitos, os problemas estão apenas nos meios, todos solucionáveis por métodos tecnológicos. Esta é uma sociedade na qual a vida interior do homem, a imaginação moral, espiritual e estética, deixa totalmente de ser relevante. É por isso que homens e mulheres devem ser destruídos e sociedades escravizadas? As utopias têm o seu valor – nada amplia de forma tão assombrosa os horizontes imaginativos das potencialidades humanas -, mas como guias da conduta elas podem se revelar literalmente fatais. Heráclito tinha razão: as coisas não se mantêm imutáveis. [1]

Como forma de evitar o pensamento homogêneo, final e com expectativas de redenção, Berlin propõe o pluralismo de valores. O pluralismo, de fato, seria somente o reconhecimento e aceitação de como os valores humanos são criados e seguidos. Segundo Berlin, os homens têm inúmeros interesses (o que não coadunaria com uma ideia utópica de interesses homogêneos), e mesmo novos interesses, ou valores, são constituídos com o passar do tempo, a partir da liberdade de escolha dos homens. A imaginação, nesse sentido, é empregada em um primeiro momento por meio da liberdade para manutenção do constante criar e modificar os desejos humanos.

Em segundo lugar, será por meio da imaginação que, ao deparar-se com o diferente, o homem poderá conceber uma cultura ou conjunto de valores que, embora distintos do seu, são reconhecidamente humanos, podendo coexistir dentro de um mesmo contexto de interesses em disputa, tal como o pluralismo prevê. A imaginação aqui ganha contornos de tolerância: é compreendendo como uma sociedade pode viver sob valores tão diferentes entre si, mas também perfeitamente reconhecíveis e aceitos, que seguimos para a aproximação e para o diálogo.

Sociedades diferentes da nossa, cujos valores máximos podem nos parecer objetivos de vida perfeitamente compreensíveis e próprios de homens que, embora sejam diferentes de nós, continuam sendo seres humanos, semblables, em cujas circunstâncias podemos, mediante um grande esforço, encontrar uma forma de “penetrar”, para usarmos o termo de Vico. Somos instados a considerar a vida como proporcionando uma pluralidade de valores, igualmente genuínos, igualmente definitivos e, acima de tudo, igualmente objetivos (…). Existe uma variedade finita de valores e atitudes, variando aqueles que são próprios de uma ou outra sociedade e podem ser admirados ou condenados por membros de outras sociedades (à luz de seus próprios sistemas de valores), embora possam por eles ser compreendidos se houver um suficiente esforço de imaginação – ou seja, podem se revelar objetivos inteligíveis de vida válidos para seres humanos (…). Tal doutrina é chamada de pluralismo.[2]

Não somente a compreensão do outro, da sociedade distinta, mas também a reconstrução histórica requererá um aplicado uso da imaginação, no esforço de apreender o passado. O desenvolvimento do conhecimento histórico não será possível sem uma dose de simpatia e imaginação por parte do historiador, que deverá se despir de seus valores, sua forma de observar o mundo, e esforçar-se, na tentativa de reconstruir e explicar os eventos passados. Berlin considera a História uma ciência distinta das ciências naturais, não podendo contar com as regras utilizadas por estas, mas sim baseando-se em uma intuição que lhe indique as motivações que levaram os personagens históricos a agir como o fizeram, e “reconstruir o que ocorreu no passado, não só segundo nossos próprios conceitos e categorias, mas também de acordo com o modo como esses acontecimentos devem ter se afigurado àqueles que deles participaram ou foram por eles afetados”. [3]

Berlin acompanha o pensamento político produzido no século 18, e traça a partir dele uma linha de herdeiros ideológicos, até chegar ao século 20. Esse percurso, no entanto, não deve nos fazer pensar que sua crítica estava limitada a determinados setores do pensamento. Berlin na verdade estava certo de que qualquer proposta política que impedisse o pleno desenvolvimento das sociedades seria nociva para elas. Essa característica era encontrada por ele tanto na ala progressista, à esquerda, quanto na reacionária, à direita, das quais os “radicais utópicos nos dois extremos do horizonte político” [4] propõem soluções finais para os problemas existentes. Distante da sociedade utópica, o pensamento político de Berlin pauta-se pelo “sentido de realidade”, pela vida real e pelos valores e costumes observados e guardados ao longo dos anos.

[1] BERLIN, Isaiah. Os Limites da Utopia. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 24.

[2] BERLIN, Isaiah. Os Limites da Utopia. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 75, 76.

[3] BERLIN, Isaiah. Estudos sobre a humanidade: uma antologia de ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 91.

[4] COUTINHO, João Pereira. As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários. São Paulo: Três Estrelas, 2014, p.25.